Desde pequena que me lembro do que era rodeada, "vivia ao ar livre" ou melhor dizendo, só entrava em casa para comer e dormir, e às vezes até me esquecia de comer. Adorava saltar muros, subir árvores, deitar-me em campos cobertos de ervas e flores e ficar horas a fio escutando todos os pequenos ruídos e observando os passarinhos, o sol e outras mínimas coisas. A coisa que menos gostava era a escola, era a mais desconcentrada, nunca fazia nada. Odiava a escola, talvez por todo o ambiente juvenil me odiar a mim. Não sabia o que era ter amigos, falava apenas para mim mesma e com aquilo que não me podia responder. Considero que tive uma infância em nada normal, não convivia com ninguém e era simplesmente gozada por eles. Ainda me lembro quando toda a escola foi convidada para o aniversário de uma menina, excepto eu.
Para os meus pais, se eu estivesse fora de casa até às 11, o que pequenina é impensável, eles não se preocupavam. Fui crescendo, mudei de escola e tudo se mantinha. Aliás mantém-se o que acho que é mantido até hoje. Sinto-me completamente sozinha, sem ninguém com quem possa contar! Será que sei o que é um amigo? Tenho imensas pessoas que gosto, e a quem não sou capaz de magoar mas não consigo confiar, não consigo acreditar que essas pessoas gostam de mim pelo que eu sou, até porque nem eu gosto! Sinto-me incapaz de dizer tudo o que sinto, toda a mágoa que corre em mim, de falar daquilo a que chamam problemas. Para quê irei falar disso a outra pessoa se ela também tem os seus? Ainda por cima se souber que ela em nada me poderá ajudar. O mais difícil é tentar manter a normalidade, sorrindo, fazer crer que tudo está bem! Aos outros e a mim própria.
Todos os meus familiares me chamavam de mimada, vivia comparando-me com os meus primos, que eu tinha tudo e isso era o meu maior problema. De facto talvez tenha sido mesmo esse o problema! Nunca tive a ajuda dos meus pais para nada, em compensação tudo o que eu queria era meu. Tudo o que havia para ter eu tinha sempre antes dos outros, bastava querer. Mas amor e carinho? Aquilo que faz essencialmente falta a uma criança? Não soube o que era isso. Passava o dia inteiro fora de casa e quando chegava mal falavam ou então gozavam com os meus problemas. Eu sei que não era e não sou normal mas isso não lhes dava o direito de criticarem uma coisa em que eles nunca tinham visto! Se vocês soubessem metade das coisas que me fizeram, bastava para deixarem de adorar a quem parte deste sofrimento me provocou.
Mas isso não interessa, é passado, e ainda magoa imenso mas não há nada a fazer, as pessoas já cresceram e talvez já tenham pensado no mal que fizeram. Se bem que custa conviver todos os dias como se nada tivesse acontecido.
Se antes não era normal, agora menos o sou!
Resta-me caminhar por caminhos desconhecidos onde talvez possa encontrar uma nova esperança, uma nova vida...

1 comentário:
Gostei mesmo muito! :)
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